terça-feira, 23 de novembro de 2010

100% com o Santo Padre

Numa entrevista concedida ao National Catholic Register, o cardeal Raymond Burke (humm, é muito bom poder escrever assim...) expõe a sua visão sobre toda a polêmica envolvendo o novo livro de Joseph Ratzinger, editado por Peter Seewald.
Polêmicas de um lado. O que me chama atenção nas palavras do purpurado (vou usar todos os adjetivos cardinalícios possíveis!) foram aquelas sobre o ecumenismo com os ortodoxos.
Não é segredo para ninguém que o papado de Bento XVI rompeu o diálogo com os protestantes. O ecumenismo pode ser classificado de algumas formas, no tempo:

Clandestino - Ecumenismo da época dos papas Pios, que visava uma unidade quase sincretista, não importando as diferenças gritantes entre os envolvidos.
Conciliar - Iniciado por João XXIII e Paulo VI. Um ecumenismo que saia das catacumbas e tomava as universidades, paróquias e organizações católicas. Marcado exclusivamente pelo impulso e dominado pela asa progressista da Igreja. Início do caos teológico e da crise de identidade da Igreja Católica. Questão do "subsists in"
JoãoPaulino - De grandes eventos e declarações dúbias (com Luteranos e Anglicanos). Uma era de gelo para as relações com ortodoxos e uma verdadeira primavera para os protestantes. Destaca-se o papel dos cardeais Willebrands e Kasper.
Beneditino - Começa a tomar corpo agora. Prioriza as questões teológicas e, por isso, foca-se unicamente na unidade com os ortodoxos. Para esse novo ecumenismo a palavra conversão não é assustadora ou herética.

Bento XVI percebeu que o ecumenismo dialogante não poderia dar resultados. Assumindo que católicos e ortodoxos compartilham basicamente a mesma fé, com algumas diferenças (graves), ele coloca questões realmente delicadas nas discussões com os ortodoxos. É o que o Príncipe da Igreja, Dom Burke, responde:

"O papa é o principal fundamento da unidade da da Igreja. Isso não pode ser realizado por um grupo de pessoas. Essa é a função de Pedro como o chefe do colégio apostólico, o Príncipe dos Apóstolos. Para colocá-lo muito claramente, essa é a primeira tarefa. Ele é o bispo da Igreja universal, e é um ponto difícil para os Ortodoxos aceitarem, mas ninguém pode ser fiel ao ensinamento e católico dizer que o pontífice romano é simplesmente mais um patriarca. Não, ele tem um serviço de unir todos - todos os patriarcas, todas as Igrejas particulares em um. E que envolve um governo direto e universal."


"Acredito que houve um esforço constante para ajudar os ortodoxos a entenderem o ministério petrino como a Igreja católica o entende. (...) a questão do primado de Pedro é uma grande questão"

Palavras importantes, porque os ortodoxos entendem o ministério petrino de maneira muito superficial, preconceituosa e focada unicamente na questão do poder. Parece ser mais relevante para os ortodoxos o fato do Bispo de Roma poder ingerir em qualquer diocese que a unidade da Igreja em si, ou seja, é uma questão de manter o "brio" dos bispos. Essa colegialidade absoluta na ortodoxia é um verdadeiro caos, gerando grandes conflitos quando se trata do reconhecimento das novas dioceses ou dos novos patriarcados. Constantinopla reconhece essa comunidade autocéfala, mas Moscou não, e assim por diante...

Está  claro que com os protestantes a unica via possível é a da conversão absoluta. Anglicanorum Coetibus é prova disso. Os protestantes foram tão longe que já não é possível reconhecer em muitas confissões qualquer traço de cristianismo.
Com os ortodoxos, contudo, a situação é mais delicada, pois não só há uma forte convergência dogmática em vários pontos (mas não todos), como os ortodoxos são verdadeiros bispos, verdadeiros padres, seus sacramentos são válidos.
O diálogo teológico, expondo claramente as diferenças e dificuldades é saudável. É isso que a integração com a Doutrina da Fé e um presidente mais ortodoxo do Conselho para Unidade dos Cristãos visa.
É a primeira vez na história em que tradicionalistas e conservadores conseguem elogiar um presidente do dicastério ecumênico de Roma. Tudo isso só é um sinal desse novo ecumenismo, teológico, que nasce com Bento XVI, Dom Koch e alguns outros prelados da Cúria que, vez ou outra, expressam suas opiniões corretas nesse sentido.
O endurecimento do ecumenismo, minha opinião, faz parte de um imenso pacote que jamais poderia ser pensado 5 anos atrás e que inclui também: restauração litúrgica, debate público sobre o Vaticano II e nomeações episcopais e cardinalícias mais tradicionais.
Para isso, Bento XVI precisou remover uma estrutura antiga, obsoleta que se encastelava no Vaticano: Sodano, Ré, Kasper e Piero Marini. Todos representantes da velha-guarda onde poder político e heterodoxia se misturavam admiravelmente.
Para concluir, o entrevistador pergunta que tipo de cardeal Dom Burke espera ser. O eminentíssimo cardeal responde:

Simplesmente alguém que está 100% com o Santo Padre, utilizando qualquer dom que Deus me deu para ajudar o Santo Padre, para dar-lhe algum conselho que ele me pede. Também nas atividades diárias, simplesmente para apoiar e promover o que ele quer e deseja. Espero que para manter esse foco sempre diante de mim. Isso é que é ser um cardeal acima de tudo.

Rezemos para que mais cardeais como Dom Burke reafirmem claramente a doutrina católica mesmo em assuntos ecumênicos, pois esse é o primeiro passo para a unidade - a Unidade na Verdade.

6 comentários:

Antonio Augusto disse...

Danilo, bem vindo de volta, de novo! O seu blog foi o primeiro que encontrei quando comecei a descobrir os "tesouros da Igreja" em 2006, e aprendi muita coisa através dele, inclusive a ter uma imensa simpatia pelo D. Burke, agora Sua Eminência. Seus artigos fizeram falta!

Mudando de assunto, li há alguns dias que o Grando Pio X tinha uma irmã em Piracicaba, que depois foi para Roma. Procede??

Abraço

Anônimo disse...

Ecumenismo "sincretistas" dos Papas Pios???
Esta eu não entendi? Pode explicar melhor?


Salve Maria!

Danilo Augusto disse...

Anônimo. O Ecumenismo sincretista não era DOS Papas Pios (jamais!!!) mas da época dos reinados dos Papas Pios. Era clandestino justamente porque os Papas Pios o condenavam com força. Só ver a Mortalium Animos.

Anônimo disse...

Ok. Entendi. Obrigado pela atenção.

Giovana disse...

Salve Maria!

Boa noite Danilo, não o conheço mas seja bem vindo ao meu rol de amigos.
Gostaria de saber se há Missa Rito Pio V em Piracicaba ou redondeza, caso haja peço que encarecidamente envie-me o endereço e o horário.

Obrigada.

Danilo Augusto disse...

Antonio
Essa história da irmã do Papa, agora que você mencionou também não me é estranha. Acredito ter lido algo no jornal daqui na época da eleição do Papa Bento XVI... se não me falha a memória.

Giovana
Infelizmente ainda não há missa tridentina em Piracicaba. O site missatridentina.com.br tem as localizações mais precisas.

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