segunda-feira, 7 de março de 2011

Vestimentas Católicas - Porque o barato sai caro!

Com a simplificação da liturgia católica, através da reforma de Paulo VI-Bugnini, várias outras coisas foram simplificadas.

Primeiro, o altar foi despido de praticamente toda a sua imponência. O sacrário, parte essencial e, até então, indissociável do altar principal, foi ferozmente transferido para uma capelinha lateral. Os castiçais perderam lugar e a cruz central foi abolida, não por força da lei, uma vez que ainda constam na IGMR, mas pela "nouvelle theologie" que incorpora um minimalismo pobre e sem sentido.

Todo sinal de ostentação, pensaram os liturgistas dos anos 60 e 70, devia ser removido. O culto da Igreja deve ser um culto simples, porque só assim seria captado pelo povo. Esse pensamento, contudo, levou e continua levando a liturgia para um caminho cada vez mais insuportável, deformando-a por completo.

Se o altar católico se empobreceu, por que seria diferente com as vestes litúrgicas? Afinal, é possível visualizar uma boa casula romana tradicional usada numa missa com um altar de acrílico? Também os paramentos dos sacerdotes e diáconos foram simplificados, ou melhor, reduzidos a uma piada do que foram no passado.

As vestimentas e paramentos pré-novus ordo eram praticamente todas feitas à mão. Com um número grande de mosteiros e conventos, as dioceses podiam se dar ao luxo de manter praticamente intacta a tradição da "Haute Couture Eclesiástica" (termo que indica roupas ou, nesse caso, paramentos feitos manualmente e de forma exclusiva). Monges e freiras se revezavam para atender aos pedidos.

Após a reforma (do Vaticano II), contudo, entraram em cena as "indústrias" de vestimentas, com seus materiais pouco nobres (poliéster e nylon) e muita criatividade para estilos nada ortodoxos.

A antiga arte das vestimentas católicas foi praticamente abandonada. Tudo hoje é feito em escala industrial e sem o mínimo de consideração litúrgica.
Alguns exemplos dessa decadência:



Neste caso reparem o antependium tradicional no altar, num estilo bem anglocatólico, em contraste com a casula "divertida" do padre.

A antiga tradição para as vestimentas tinha o mesmo princípio usado para a arquitetura, o altar e o rito em si: para Deus sempre o melhor. Com o advento do rito minimalista, como já dito, houve um efeito dominó onde cada peça que caia derrubava a seguinte: primeiro um novo rito, depois o altar é mudado, os prédios abandonaram a arquitetura tradicional e as vestimentas dos sacerdotes foram empobrecidas.

Alguns liturgistas da atualidade, dentre eles muitos leigos das equipes paroquiais de liturgia, não conseguem enxergar alguma importância no uso das vestimentas tradicionais ou, pelo menos, com um corte não exótico como aquelas apresentadas acima.

Poderíamos apresentar vários argumentos e orientações oficiais que, no entanto, não surtiriam qualquer efeito. Se documentos e decretos fossem fortes o suficiente para coibir abusos, então a Igreja jamais teria uma única crise em sua história. O que muda a percepção das pessoas que, mesmo sem saber, fazem algo errado ou inapropriado é o conhecimento e a mudança do coração.

Numa entrevista de emprego nós procuramos nos vestir da melhor maneira possível. Numa ocasião solene como uma formatura, por exemplo, nossa roupa também procura ser a melhor. Se tivéssemos a oportunidade de falar pessoalmente com um rei ou uma rainha, nos portaríamos e nos vestiríamos sempre da melhor maneira possível. Por que na missa, onde o sacerdote será um Alter Christus (outro Cristo), ele deve se vestir com paramentos que são literalmente uma porcaria?

A arte de costurar pra Deus!

A confecção de um paramento tradicional é uma verdadeira arte, pois envolve materiais selecionados, técnicas transmitidas de mãe pra filha (ou nesse caso de freira para freira) e muita paciência. Praticamente tudo é feito à mão ou com máquinas bem artesanais.

O resultado de tanto trabalho é uma casula ou uma estola que nunca será igual a outra. É como uma oração, é feita sob medida! O sacerdote não recebe o paramento numa sacola plástica, mas diretamente das mãos da irmã que se dedicou por horas (no mínimo 150 horas! para um conjunto completo bordado) na confecção de algo que ela sabe que será usado para o mais augusto dos fins - a missa! Que máquina industrial teria esse cuidado?

Não é apenas uma diferença de qualidade, embora só isso atualmente faça uma diferença absurda. É uma diferença de contexto.

Veja abaixo como é o processo de fabricação de uma casula tradicional, feita sob medida pelas freiras beneditinas de Maria Rainha dos Apóstolos.

O bordado é manual, acompanhando um molde para referência de cores. Contudo, nunca uma freira consegue reproduzir exatamente o molde, o que garante uma saudável variedade.

Um bordado complexo pode levar semanas, dependendo do tamanho. 

"Linhoteca" - conjunto de linhas de diversas cores

Conjunto de moldes e texturas para aplicação

Amostras das rendas que serão aplicadas nas vestes de baixo, como a sobrepeliz.


Amostras de texturas para aplicação em diferentes estilos de casula: gótica e romana. Hoje em dia nenhuma fábrica de paramentos tem esse nível de preocupação litúrgica e histórica. Se há dois estilos eles são naturalmente diferentes, não é mesmo?

Casulas na costura para finalização. Estilo gótico, normalmente menos elaborada que a romana.

Casula romana concluída.

O ateliê do Papa.

Para quem ainda não sabe, o Papa Bento XVI  tem suas vestes fabricadas também de forma artesanal e exclusiva. A familia Gammarelli é quem cuida das roupas do Papa desde 1792, incluindo vestimentas litúrgicas e as famosas batinas brancas do dia a dia.

Monsenhores, bispos e cardeais também escolhem a Gammarelli para suas vestimentas. O ateliê segue o princípio do "feito sob medida".

Mais de dois séculos servindo os prelados da Igreja.

A loja dos Gammarelli é um dos poucos lugares no mundo que ainda fazem as sandálias pontifícias

Gammarelli - tudo feito à mão.


A utilidade real de tudo isso.

Você deve estar se perguntando qual a utilidade real de tudo isso. Por que usar paramentos tradicionais e não os fabricados pela lojinha da esquina. Vamos aos fatos.

Comprando naquela lojinha da esquina, que tem paramentos de algodão e nylon, você estará contribuindo com seu país! Sim, vocês pagará ICMS e contribuirá para que o nosso país continue sendo uma locomotiva do crescimento econômico. Você receberá literalmente um produto que foi fabricado em massa, por isso não se espante em ver quinze padres da sua diocese com a mesma vestimenta. Você receberá algo que foi fabricado por uma máquina ou por duas costureiras, no máximo, e que obedece a um padrão comercial de construção, ou seja, não há uma preocupação litúrgica com a peça. Você poderá levar algo assim:

Adquirindo as peças feitas de forma tradicional em mosteiros ou conventos, você receberá o fruto de longas horas de trabalho. Feito a mão e sob medida, não terá outro igual. Com materiais nobres e feito por alguém que sabe a diferença entre uma casula romana e uma gótica. Com o dinheiro pago, o mosteiro ou convento se sustenta e pode buscar novas vocações. Um convento forte é sinal de boas orações para toda a comunidade, algo que a máquina industrial não é capaz de fazer. O resultado pode ser assim:


As vestimentas feitas de forma artesanal são mais resistentes aos desgastes do tempo e do clima, por incrível que possa parecer. Há casulas do século XI conservadas em museus e estão praticamente em perfeito estado se contarmos os dez séculos que nos separam. Quantas casulas modernas durariam mais que 20 anos? Muito poucas, porque o material é de uma qualidade inferior.

São justamente essa durabilidade e a qualidade que fazem uma casula tradicional ser um pouco mais cara que uma moderna.  Um pedaço de algodão e nylon cortado e costurado é muito mais barato que um tecido de seda bordado, não é mesmo? Mas lembre-se, essa roupa não é para você, mas para Deus! É parte do culto do único Deus que criou o Céu e a Terra.

Uma arte em extinção.

Com o decréscimo das vocações religiosas em todo mundo, a arte da manufatura das vestimentas está ameaçada. Praticamente todo convento produzia vestimentas para seus padres diocesanos, hoje, contudo, não restam muitos.

No Brasil as irmãs do Instituto do Coração de Maria e São Miguel Arcanjo fazem os dois tipos de casulas: as mais artesanais e também as feitas com materiais mais simples. Recomendo que conheçam o trabalho das irmãs ligadas à Administração Apostólica Pessoal de S.João Maria Vianney (clique aqui).  Algumas imagens dos trabalhos das irmãs.




Entrando em contato com as irmãs do Coração de Maria você poderá dar os seus palpites na confecção do paramento, algo impossível de fazer na lojinha da esquina. Não terá problemas com tecido sobrando aqui ou ali, estola que cai dos ombros ou é curta demais, etc. Tudo sob medida!

7 comentários:

Anônimo disse...

belissimos , estão de parabéns

Anônimo disse...

Danilo, parabéns pelo post. Após ler, fiquei me perguntando: - Então não existe um "atelier" ou uma "fábrica" no Brasil, que mesmo produzindo os paramentos em "série", consiga fazer algo belo? ou até mesmo de qualidade? conheço aqui em sao paulo a DeA paramentos, que faz um trabalho muito interessante, assim como a Arte sacro que se não me engano é de santa catarina, excepcionalmente encanta pela qualidade, por isso desconfio que o gosto do brasileiro e a exigencia é até maior do que a dos europeus, então acabamos tendo coisas belas feitas em tecidos menos nobres, por que nosso país é carente de tecidos nobres à preços acessíveis.
Fique com Deus,
parabéns pelo seu blog.

Danilo Augusto disse...

A DeA faz paramentos muito bonitos e bem acabados e, embora não conheça a sala de costura da empresa, acho que há um grande trabalho manual envolvido, ainda que não seja 100% manual. Você precisa encomendar algumas peças da DeA, por isso eu acredito que eles fabriquem com mais cuidado que uma loja industrial.
Infelizmente a DeA é uma exceção (e bem cara).
O problema é que nós, brasileiros, não temos como comparar. Praticamente toda a tradição da costura de paramentos está extinta no Brasil.
No geral, o poliester e o nylon reinam nos altares. Casulas mais leves (são tão finas que se parecem com um lençol) para o clima tropical, segundo as justificativas da indústria. Isso quando não usam cores e bordados medonhos, exagerados e fora de contexto.

Emmanoel Igor disse...

Eu gostei das rendas! São lindas e nunca vi rendas assim no Brasil.

Os autores do Blog sabem como eu posso adquirir,seja no Brasil ou importando do exterior, estas rendas?

Bom, meu e-mail está no comentário. Por favor, preciso muito de rendas assim.

Grato,

Emmanoel

Danilo Augusto disse...

Emmanoel
Os dois links que estão na postagem (das irmãs beneditinas dos EUA e das freiras da Administração apostólica) são os únicos contatos que podemos te fornecer. Seria mais fácil enviar uma mensagem para as religiosas brasileiras, quem sabe elas tenham modelos próximos daqueles que você precisa.

Em Cristo
Danilo

Anônimo disse...

DANILO. SÓ FALTOU VOCÊ POSTAR O ENDEREÇO PARA CONTATO COM A GAMMARELLI. ABRAÇOS.

Anônimo disse...

Para que tanta roupagem,Jesus certamente,nunca se preocupou em se vestir assim."Ohai os lírios do campo,nem salomaõ,com seu esplendor se vestiu como um deles."

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