terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nós também queremos um Ordinariato!

O que estamos vendo na Inglaterra e em algumas partes do mundo anglofono é uma revolução positiva na forma como a Igreja Católica lida com as conversões em massa nesses tempos ecumênicos. A constituição de ordinariatos, uma espécie de diocese específica para alguns grupos e territorialmente amórfica, é um fato singular e de vital importância.
Nos tempos passados a Igreja sempre recebeu as conversões em massa na forma de uma estrutura "Sui Juris", ou seja, a incorporação de uma ou várias dioceses cismáticas na Igreja Universal. É claro que as comunidades sui juris detinham uma válida sucessão apostólica e uma hierarquia de fato e, justamente por isso, limitam-se hoje aos católicos orientais.
A incorporação desses católicos (orientais) ao longo da história se deu não sem grandes traumas no processo de transição, mas permitia que esses grupos, essas verdadeiras comunidades apostólicas, vivessem e mantivessem a sua tradição litúrgica e espiritual.
Contudo os anglicanos não conservaram, com absoluta certeza, a sua sucessão apostólica. A imposição das mãos dentro do anglicanismo é nula e inválida. Claro que não podemos desconsiderar a presença de vetero-católicos nos tempos pós-Leão XIII, mas a necessidade de termos absoluta certeza nesta grave matéria só confirma a bula do Papa Leão XIII.
Mesmo não retendo uma sucessão apostólica válida, o Papa decidiu que os anglicanos convertidos poderiam manter a sua estrutura litúrgica e espiritual. Esse foi o grande gesto de generosidade do Papa. Os anglicanos foram parte da Igreja Latina, portanto mesmo que tivessem conservado a sucessão apostólica e fé ortodoxa, o Papa não tinha qualquer obrigação de criar uma comunidade latina dentro da comunidade latina.
É fato que eles desenvolveram um patrimônio independente. A piedade anglicana (sim, ela existe) remanescente do Movimento de Oxford e dos tempos da clandestinidade católica nas ilhas britânicas moldaram singularmente alguns membros da comunhão anglicana de tradição anglo-católica. Não se pode ignorar isso.
Depois da sua purificação, boa parte desse patrimônio será incorporado ao catolicismo. É como lapidar um diamante incrustado na rocha.
O Ordinariato foi a solução encontrada pelo Papa e pela Cúria para fazer sobreviver a intenção de conversão dos anglicanos dentro da Igreja Católica. Não sejamos tolos, os bispos dessas regiões não estão nem um pouco satisfeitos com essa idéia de conversão, muito menos com a autonomia desses convertidos com o Ordinariato. Contudo, sem o Ordinariato e a sua autonomia, muitas dessas conversões seriam impossíveis.
A grande questão que proponho é: será que os católicos romanos tradicionais (aqueles que vivem a autêntica espiritualidade do Rito de S. Pio V) não precisariam de um Ordinariato?
Vejam o caso do Brasil, por exemplo. Temos bispos que, mesmo três anos depois da publicação do Motu Proprio, continuam demonizando os católicos tradicionais em suas dioceses. E em alguns lugares a perseguição é aberta e descarada.
Será que não precisamos de um Ordinariato Tradicional para manter essa parcela tão pequena e massacrada do povo católico viva dentro da Igreja?
A segregação positiva, no caso da criação de uma estrutura específica, pode ser a única solução. Me refiro a "segregação positiva" para diferencia-la da segregação negativa na qual vivemos em nossas paróquias e dioceses.
O Ordinário Católico Tradicional, se viesse a existir, seria igual ao seu par "anglicano" e reuniria os grupos tradicionais espalhados pelo Brasil e lhes daria assistência espiritual adequada e, como um bônus, seria também membro da CNBB.
Até o Papa previa a dificuldade de convivência entre os tradicionais e os diocesanos, tanto que no próprio texto do Motu Proprio há uma provisão para uma estrutura quase-autônoma dentro da diocese - a paróquia pessoal. Quantas nós temos no Brasil? Zero. Não contamos as paróquias da Administração Apostólica, que são um caso a parte.
Eu não vejo uma outra forma de se oferecer ajuda (socorro) espiritual aos católicos tradicionais brasileiros (não só brasileiros...) que não a criação de um "ordinariato tradicional".
Três anos após a publicação do Motu Proprio e a luta, no Brasil, se encerrou. Muitos grupos desistiram ou esmoreceram, se conformaram. O ânimo das tropas segue em baixa.
Nem podemos comparar com os anos de 2007-2009, onde havia uma verdadeira efervescência, uma animação em colocar em prática o que o Papa tão corajosamente havia promulgado. O que sobrou disso? Alguns resultados positivos, é verdade, mas no conjunto da obra o cenário é desolador.
Esperar por essa "estrutura" é, talvez, esperar demais. Mesmo o ordinariato anglicano quase não existiu pois a força dos bispos ingleses foi quase invencível. Imagine uma estrutura para os leprosos tradicionalistas! Seria um gesto de uma coragem e de uma independência papal absolutas.
A única estrutura para os tradicionalistas que os bispos, no seu conjunto, estariam dispostos a aceitar é a "porta de saída". E alguns católicos realmente se afastaram da Igreja de uma forma ou de outra.
O que fazer? Confesso que quando fico sabendo de uma notícia aqui e ali, de uma parte X do Brasil, fico desolado. Sei que é preciso continuar a luta, mas um placar de 30 x 0 é bem desestimulante.

6 comentários:

  1. Danilo minha dúvida é quanto ao Ordinariato Anglicano.
    Eles receberam aulas de doutrina católica? Estudaram?
    Afinal, as diferenças entre anglicanos e católicos é mais do que simplesmente o Chefe da Igreja. Há outras diferenças na doutrina. Certo?
    Enfim, eles estudaram para se tornarem verdadeiros católicos?
    Obrigado!
    Salve, Maria!

    In Corde Jesu et Mariae,
    Pércio Lopes Neto.
    Coordenador do blog www.rainhadosanjos.tk

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  2. Pércio

    O processo de conversão dos anglicanos tradicionais da TAC é mais fácil porque há um bom tempo eles têm aulas de catecismo católico em suas paróquias ou nas paróquias católicas. No caso da TAC foi um processo natural.
    Já os anglicanos de Cantuária, como é o caso do Ordinariato da Inglaterra, embarcaram no susto, pois eles não haviam pedido para entrar na Igreja Católica como fizeram os membros da TAC.
    Não sei dizer se houve um processo realmente profundo de preparação. Sei que eles, os leigos, se preparam para entrar em plena comunhão durante a Semana Santa e, até lá, estão tendo aulas de catecismo em suas comunidades.

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  3. Deve haver cuidado com a conversão deles.
    Para o bem da alma deles.
    Obrigado pela resposta!
    O blog é ótimo!

    In Corde Jesu et Mariae,
    Pércio Lopes Neto.
    Coordenador do blog www.rainhadosanjos.tk

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  4. Corroborando com Pércio, creio não existir a preparação adequada no que diz respeito a maioria dos Anglicanos...

    Em relação ao ordinariato, tudo bem, em parte seria viável. Mas é o seguinte: Sabemos que a maioria dos católicos tradicionais estão dispersos, em pequeníssimas quantidades. A título de exemplo, falando francamente, em minha cidade de 30 mil habitantes eu só conheço a mim mesmo como tradicional, nem minha família o é.

    Então, a solução mais viável que eu vejo seria uma fiscalização rigorosa do próprio Vaticano para que os padres tenham a liberdade de rezar a Missa de Sempre (ou Missa Tridentina, a seu gosto); digo mais do que isso, a imposição de uma punição severa para os bispos que forem denunciados por impedir que a Missa seja celebrada...

    Edivaldo Júnior
    Administrador do site Arauto da Verdade
    www.arautoveritatis.com

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  5. Me desculpe, mas querer um Ordinariato para os tradicionalistas é uma grande ilusão. Isso nunca vai acontecer. Se querem alguma coisa nesse sentido, apoiem as vocações sérias e verdadeiras; vocações religiosas e sacerdotais precisam muito de ajuda, inclusive econômica...

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  6. Muito a se pensar...
    Provavelmente se existe algum pensamento do tipo no Vaticano, em minha opinião, que pode estar errada, eles aguardam a adesão da FSSPX, para talvez no futuro uni-la às demais comunidades Ecclesia Dei, criando uma super-estrutura.
    Mas para isso, ao contrário dos anglicanos de todos os naipes, que aderem à Igreja Católica sem ressalvas, no caso tradicionalista, os ponteiros deveriam ser acertados na questão doutrinária.
    De outra forma, não haverá adesão da FSSPX.
    Digo isso, porque não me parece que a Santa Sé deseje criar estruturas ad infinitum, uma para tradicionalistas que têm missa summorum pontificum, outra para a FSSPX. Criando-se um ordinariato, o que será feito das outras comunidades Ecclesia Dei? Farão parte? Deixarão de ser institutos de Direito Pontifício ou administrações apostólicas?

    E outras coisas mais...

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